Eu lembrei

Como eu tinha esquecido disso?

Estava aqui o tempo todo, meio escondido embaixo de tantas camadas.

Mas era exatamente da forma como eu havia deixado.

Tava lá, esperando que eu encontrasse.

E como fui nó-cega durante todo esse tempo.

Nem sabia que tava perdido até reencontrar. Sabe aquela famosa frase: Cê vai achar quando não estiver procurando’?

Então, é isso mesmo.

E eu lembrei.

Mas não foi tudo de uma vez não, tipo uma epifania.

Foi aos poucos, gradativo como um sonho que a gente vai recordando logo após acordar. E que precisa se esforçar para não despertar o suficiente até esquecer.

Ai eu lembrei.

Juntando os pedaços como se fosse um pequeno quebra-cabeças

Primeiro as peças mais fáceis no canto. As que a gente distingue sem problemas entre as outras.

Depois vieram as partes complicadas, aquele céu tudo igual, os pedacinhos de grama.

E tudo se formou novamente.

Foi uma foto primeiro, uma pequena recordação de tempos”antigos”.

Depois alguns textos, mensagens salvas.
O coração ficou quentinho, inundado com a nostalgia.
Até que, por fim, a onda me atingiu.
Uma música, Sentimentos poderosos.

E o retorno a mim. O encontro com o meu eu.

Porque ficar sem isso me tornou uma estranha durante certo tempo.

Mas agora. Eu LEMBREI.

De quem eu era, de quem eu sou. A minha essência. Que foi sugada pelo dementador da vida adulta em algum momento.

Daquilo que eu amo, o que me deixa animada, o que me inspira a levantar todo dia e fazer o melhor que eu posso.

A pessoa que eu sempre tive orgulho de ser e quem eu deveria cuidar e evoluir ao longo dos anos.

Mas ela ficou guardada tanto tempo. Tá empoeirada e meio tristonha.

Ela é ótima, e vai adorar conhecer esse novo mundo. E virar o Megazord da minha própria existência.

Só que agora eu lembrei, gente. E jamais esquecerei.

Como você quer ser lembrada(o)?

Temos vivido em um período em que lidamos, quase que diariamente, com o lembrete permanente de que a vida é um bem precioso e que tem uma duração que nenhum de nós sabe qual é.

Uma dádiva passageira. Que merece ser valorizada. E aproveitada da melhor forma possível.

Com essa questão em mente, não é possível deixar de pensar: como gostaria que as pessoas à minha volta lembrem da minha presença em suas vidas? Qual é o legado que desejo deixar nesse mundo compartilhado com tantas pessoas?

O que faria de diferente? Qual seria o caminho escolhido? Que mudanças faria para que o futuro trouxesse lembranças permanentemente boas?

Definitivamente, pensamentos de evolução pessoal surgem na mente. Poderia ser um ser vivo melhor, com mais amor distribuído, mais proatividade e empatia.

Se pudesse, gostaria de deixar como marca uma vida que trouxe sorrisos. Corações quentinhos de alegria.

Lembrada pelo amor semeado, os momentos compartilhados. As risadas, as amizades e relações de afeto.

Mas será que sempre conseguimos esse pensamento positivo? Todo dia é uma batalha. É complicado. E é uma tarefa que, com satisfação, aceito. Ser mais amável, menos egoísta e mais empática.

Para que, assim, possa deixar a trajetória de uma pessoa que viveu, errou, mas aprendeu com cada situação. Que já teve atitudes das quais não se orgulha, mas pôde crescer e evoluir. Tirar ideias antigas da sua vida e espalhar mensagens de um mundo melhor, amoroso.

E esse é o meu objetivo. Poder usar a minha experiência nesse mundo como algo que pode impactar positivamente, nem que seja uma só formiga dessa Terra. Não sei o quanto dessa tarefa será cumprida, mas vale a tentativa.

E você, como quer sem lembrada(a)?

Foto por Suzy Hazelwood em Pexels.com

Memória Seletiva

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Não sou de lembrar detalhes.

Se me perguntarem o que comi ontem, pode ser que fique um tempo tentando recordar e falhe miseravelmente.

Tenho dificuldades em manter fotografias em minha mente. Como as pessoas que fecham os olhos e lembram de cada cena da vida. Assim como filmes e séries.

Em um exercício de concentração, não pude inserir em minha mente a imagem do mar. E olha que é super básico. Água, areia, onda, sol…

Mas eu lembro de você. Pelo menos mais coisas do que eu consigo recordar de muitos outros momentos.

E essa é a ironia da vida.

Posso fechar os olhos e recordar alguns momentos-chave.

Sei qual camiseta você usou na primeira vez que nos vimos. Se eu parar e encarar o nada, consigo encaixar momentos da última vez que nos vimos também.

Eles me aparecem em flashs, quando estou desatenta.

Dá para fazer uma montagem com todas as pequenas fotografias.

Posso descrever detalhes de rolês com mais clareza do que consigo explicar como está a sala da minha casa nesse momento.

Poxa, tanta coisa que eu precisava lembrar. Anos e anos de colégio, o primeiro emprego, comemorações ou tristezas. Nada disso está tão vívido na minha mente.

E isso é injusto.

Porque só serve para que eu fique olhando pela janela do ônibus, pensando em tudo aquilo que eu gostaria de deixar guardado (bem escondido, no fundo das gavetas de meias).

Queria escolher, assim como mudo de canal, aquilo que vou “assistir” porque viver com essa memória seletiva tá complicado.