Casa Cheia

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Consigo ouvir os primeiros sons vindos do quintal. O bom dia para os cachorros junto com algum tipo de resmungo sobre qualquer coisa simples.

Copos, itens para o café da manhã, a louça sendo lavada… começaram as atividades da casa.

Cada um tem seu horário, sua rotina. Nem sempre conseguem se ver.

Uns já precisam correr para trabalhar, jornada cedo. Café corrido. Uma bronca por não sentar para comer.

Portas abrem e fecham, assim como as torneiras. É um ecossistema que vive e funciona À sua maneira.

Tem bom dia longo, abraços, reclamações matinais. É o prelúdio para o novo dia.

Depois a programação segue normalmente. Trabalho, correria. Vida.

Longe por um tempo. Depois juntos. Depois longe. É a rotina. Ou era a rotina.

Quando unidos, risadas, falas altas.  Brigas, irritação.

Cantoria, piadas. Discussões.

Os milhares de animais fazendo a sinfonia, pedindo carinho, comida. atenção.

Resumindo: FAMÍLIA.

Panelas, máquinas, carros e televisão. Aquela série que um vê sempre. O jornal tenso que todos querem evitar. A rádio nossa de cada dia.

Já não é mais assim. A casa foi esvaziando. O distanciamento se tornou a nova realidade.

O endereço é o mesmo, mas os moradores, não.

Foi pensando em cuidados, em cuidar.

Separados, mas não isolados. Juntos, mas sem barulheira.

Não tem colher batendo na panela tão alto. Ou alguém chamando na escada.

A presença e o som fazem falta e a saudade ecoa no coração apertado. E o olho enche de lágrima.

Mas com uma chamada de vídeo aqui, uma visita segura ali (com altas doses de neurose). Tudo se alivia.

Depois volta ao novo normal.

E todo dia a gente pensa em como era quando a casa tava cheia.

Foto por Kelly Lacy em Pexels.com

Telefone Fixo

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Telefones não são meus objetos favoritos. Definitivamente.

Ironicamente, houve um momento na infância em que um telefone de brinquedo era meu item preferido para horas de distração.

Ao longo dos anos, nossa relação se distanciou. O telefone fixo passou a ser um símbolo das necessidade de interação social ativa. Receber chamadas das amigas, ficar horas a fio falando sobre os acontecimentos do dia.

Algumas vezes isso até aconteceu, mas a pressão de manter toda essa socialização um dia foi pesada demais. Aos poucos, o telefone se tornou um objeto non grato na minha lista.

E assim segue, não gosto de ligar, nem ao menos atender.

Entre as duas opções, fazer a ligação ainda é o pior momento. A suadeira começa, palma da mão, testa e outras áreas críticas que exigem uma reposição de desodorante enquanto aperto os números.

Não me entendam mal, eu não sou anti-tecnologia. Ter o telefone à disposição é uma maravilha. Uma forma de conexão com pessoas que amamos que estão distantes (ou até pertinho, mas infelizmente não vivem embaixo do mesmo teto).

E o celular, minha nossa, é basicamente um membro do meu corpo, com tantas funcionalidades (seja para manter contato ou atividades variadas)! Sou viciada no smartphone. Só não me faça usar para uma das principais razões da sua existência: ligar para as pessoas.

Faço o possível com mensagens, e-mails e até algumas chamadas de vídeo. Admito que, às vezes, sou negligente e demoro mais do que devia, mas eu amo meus humanos e sempre prometo que isso vai mudar (e eles me amam também, porque fingem que acreditam.

Com o avanço da tecnologia, a linha fixa se tornou quase que obsoleta, com exceção das chamadas oferecendo produtos ou de membros mais “antigos” da família que ainda preferem esse meio de comunicação.

No entanto, nos últimos meses (com isolamento e vírus por aí), a linha fixa e seu toque alto tornou-se um alarme, um gatilho, um sinônimo de paúra extrema. E não tem nada relacionado ao contato, mas ao conteúdo.

Ligações na linha residencial, na minha cabeça levemente ansiosa, só pode significar uma coisa: NOTÍCIA RUIM.

Sério, cada vez que toca, o coração dispara, as mãos tremem. O medo de descobrir que alguma coisa terrível aconteceu me faz temer pelo som desse aparelhinho. Porque, convenhamos, que familiar ligaria só para falar que tá tudo bem?

É um pânico diário, passando as horas torcendo para que nenhum som ecoe pela casa.  Vivendo sobre a premissa de “notícia ruim chega rápido” e, para mim, só pode chegar pelo telefone fixo. Quem mandaria um ZAP tenso? (tá, sei que muita gente faz isso, mas entenda, não se trata de lógica…)

Faz bem para mim? Não.

Deveria sofrer tanto com isso? Também não.

Consigo controlar? Eventualmente.

Espero que as pessoas por aí não sofram com isso? COM CERTEZA.

Uma forma saudável de lidar é buscando pessoas (sejam profissionais ou pessoas de confiança) para ajudar a ressignificar isso? SIM SIM SIM!

Nossa cabeça funciona de formas bem diferenciadas às vezes, lidamos com situações e juntamos fatores para explicar alguns medos e ansiedade. Isolados, isso piora ainda mais.

MAAAAAAAAS, nem tudo está perdido, nem pra uma pessoa que tem um medo infinitos de telefones tocando (ou de ligar para os outros).

Se há problema, há solução. É nisso que acredito e essa convicção não vai mudar. Ainda que demore mais tempo do que  gostaria.

O jeito é respirar fundo, torcer pro telefone não tocar e tentar lidar com isso, um número por vez.

Foto por Pixabay em Pexels.com

 

40 Pequenos Desabafos #ResenhaDeQuinta

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Título/Autora: 40 Pequenos Desabafos de quem não nasceu para a quarentena, Ruth Manus.

Avaliação: Desabafando com os gatos sobre o isolamento.

Nada como poder ler alguns textos de pessoas que, assim como nós, estão tentando lidar com toda essa situação estranha da melhor maneira possível, né?

Não tem sido um momento fácil e muitas vezes achamos que todas as coisas vão nos afundar dentro das nossas próprias emoções. Por isso, é muito bom saber que não estamos sozinhos nessa e que tem gente que também anda numa montanha russa de sentimentos.

Esse livro curtinho é mais uma daquelas ótimas indicações para esse momento. É algo que dá pra ler rapidinho e ter a sensação de “dever literário cumprido”, além de ter o quentinho no coração ao se encontrar em momentos da narrativa.

A autora faz pequenos desabafos ao longo de 40 dias do isolamento que a grande parte das pessoas foi submetida. Entre as páginas, vemos aspectos familiares, sobre a convivência, o dia a dia juntando trabalho e organização da casa, risos, lembranças, novas receitas.

Aborda a nostalgia de dia em que estar com os amigos era possível, o nervoso de não conseguir fazer o que gostaria, um pouco do psicológico abalado, a relação com a janela, o mundo e a vida lá fora.

Os desabafos convergem com o que muitos têm passado e é ótimo ter a oportunidade de ler algo que permite a que gente se “encontre” dentro dessa literatura tão atual. Sabendo que tá tudo meio estranho, mas estamos lidando com isso em conjunto e tentado fazer o melhor.

Em alguns momentos eu chorei de rir lendo alguns itens que me representam muito, seja na limpeza, na procrastinação ou só nas emoções abaladas pelo isolamento. Já em outras partes, deu aquele apertozinho no coração. Vemos o papel da tecnologia nas reuniões (familiares, de trabalho ou com amigos) e percebemos que tá todo mundo no mesmo barco.

Se alguém já leu esse livro, conta o que achou nos comentários.

Até a próxima.

Abraço.zip

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Queria que estivesse aqui do meu lado.

A uns centímetros de distância, com os abraços abertos, esperando que eu me encaixasse nesse que é o melhor lugar do mundo.

Apoiada em seu peito eu choraria as pitagas sobre como o trabalho anda complicado ou aquele filmes que eu adorei. Ou somente te obrigaria a me dizer como foi o seu dia (mesmo que você insista que foi a mesma coisa do anterior, sem novidades).

Quero saber de tudo, manter a conversa, para ter a sua presença ao meu lado. Aproveitar todo o amor que cabe nesse pequeno gesto.

Aproveitar esse carinho sem pensar em inimigo invisível ou na máscara que eu vou ter que usar da próxima vez que a gente estiver junto.

Nem como a minha neurose vai me impedir de te abraçar por muitos segundos, E me fará correr para o banho.

Alguns dias eu choro de ansiedade pensando que por uma fatalidade da vida eu poderia nunca mais ter a chance de te abraçar. Isso acaba comigo. As lágrimas rolam enquanto escondo o meu medo embaixo do chuveiro.

Mas hoje, na semana em que comemoramos o dia do abraço, eu quero mandar uma versão.zip para você (ou melhor, vocês). As pessoas que eu amo e não posso me aproximar no momento.

Para quem eu convivo sempre ou aqueles que consigo ver a cada ano bissexto por causa das agendas complicadas, os relacionamentos que ocupam tempo ou qualquer outra questão logística.

Que o calor desse gesto tão simples, mas cheio de sentimentos, seja levado até a sua casa, pela transmissão de energia boa que voa pelo mundo como se fossem agraciados pelo pó mágico da Sininho.

Para quem eu não conheço, para quem está só (não importa a razão) ou os que não podem se aproximar dos entes queridos, mas que estão precisando de um afago, espero que também possam sentir o enlace zipado enviado com muito carinho

E espero que nunca mais nos privemos desse ato. Se sentir vontade de oferecer uma abraço a alguém, fale. Não passe vontade. Nunca se sabe o dia de amanhã.

Se puder, envolva nesse maravilhoso gesto quem está ao seu lado. Agradeça pela companhia. Aproveite a oportunidade de ter alguém com você.

Desejo que no próximo Dia do Abraço, todos possamos celebrar com muitos e muitos (sem ser zip). Apertado, afetuosos. De chegadas ou despedidas, de amigos, família ou apaixonados, que sejam sinceros e amorosos.

 

Foto por Pixabay em Pexels.com

Nostalgia à flor da pele

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Em tempos de isolamento, momentos em que estamos,muitas vezes sós com os nossos próprios pensamentos, a mente passeia, vaga e busca algum lugar para aterrissar.

Nesses dias de reclusão voluntária, não é difícil de notar uma onda nostálgica que nos leva no mar de lembranças durante esse período.

Me vi como a jovem que tinha grandes sonhos com sua escrita e produções audiovisuais. Além de uma viagem para conhecer a terra de sua maior “ídola”.

Encontrei com uma pessoa que não reconheci. Que tinha medo, mas não deixava que ele a paralisasse (tá, deixava, mas não com a frequência).

Os traços ainda são os mesmos, a altura também. O coração um pouco mais peludo. A mente um pouco mais embaralhada.

E um sentimento que sempre esteve lá. Um que cresceu ao longo do tempo. A nostalgia por aquilo que eu nunca vivi. Combinado com a sensação de tempo perdido. Como se fosse tarde demais para começar algo.

E a cada ano que passou, aceitei essa verdade. E agora vejo como isso minou a minha persona do passado.

Outras pessoas têm reações diferentes à situação. Lembram os tempos antigos como áureos. Os melhores. Sem defeitos.

Sentem falta de tudo e de todos, de cada rua que andaram, aos amigos que ficaram para trás ou os programas que não passam mais na TV.

Tem gente que prefere nem lembrar do que ficou lá longe. Mas não esquecem no “passado recente”, das socializações, dos amigos, amores e familiares que estão presentes somente através das frias telas de seus smartphones e computadores.

Estar somente com a nossa memória, presos 24 horas à saudade (do passado, passado semi-presente ou futuro), deixa qualquer nostalgia, como diziam os jovens, no talo! (tradução: no nível máximo).

Nossos quadradinhos de afastamento (bem privilegiados, inclusive) nos deixam com a vida passando em um loop da retrospectiva do final do ano. Separando episódios a cada dia.

Mas, se tivermos sorte, em um segundo de epifania gerada pela overdose de nostalgia (e depois de algumas sessões de choro e hiperventilação) vem a vontade de ser mais que isso. De mostrar para o passado que não estamos totalmente perdidos e, para o futuro, que ainda tem chão para percorrer.

Em um lampejo de coerência, vindo a partir de um vórtice nostálgico musical, lembrei de quem era (e de quem almeja ser). Dos medos que eu tinha (e os que eu não tinha) e alinhei tudo na “cama da mente”, tipo quando vamos arrumar a mala viajar.

Nesse momento, a única solução que me parece viável é selecionar aquilo que vai para a bagagem. O que será levado quando atravessar o portal dessa pandemia!

Ainda que o melhor de nós (ou da vida) pareça ter ficado em algum lugar no tempo, porque não podemos tentar de novo, criar novas oportunidades de ter as mesmas alegrias, os mesmo sonhos?

Não dá para ser completamente igual. (E tá tudo bem, lembre-se que o véu da lembrança deixa a realidade embaçada). Mas podemos erguer a cabeça e fazer um esforço para ter mais momentos como aqueles que tanto recordamos e sentimos falta.

Se não tem o desenho da infância, que bom que você pode ver as reprises. Se algumas pessoas já se foram, ainda bem que pudemos ter a chance de conviver com elas pela tempo que foi possível. Se perdemos algumas chances, porque não aprender com o que errados e tentar de novo assim que pudermos?

Enquanto houver casa pra andar no Jogo da Vida, a gente vai jogar esses dados. Algumas escolhas serão eternas pedras no nosso sapato. Decisões erradas acabam voltando para nos atormentar. Alguns monstros são mais difíceis mesmo de mandar embora.

Como a Katia já cantou, não está sendo fácil. Mas vamos conseguir superar.

A nostalgia pode ser a nossa âncora, mas não para nos afundar no meio do mar! Ela tem a enorme capacidade de nos manter seguros no porto enquanto aproveitamos ciclos de retiros para reorganização das ideias.Vamos utilizá-la da melhor maneira que encontrarmos! Que ela nos alce e não nos submerja!

Foto por Leah Kelley em Pexels.com

 

Aqui estamos nós…

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Caso não tenha visto (o que é bem provável), essa foi a citação do dia de hoje:

“Aqui estamos nós, por dias difíceis e dias bons, por desespero e por euforia, apaixonados e decepcionados, só agora ou para sempre. Aqui estamos nós.”

É um trecho do livro “à primeira vista”, de David Levithan e Nina Lacour.

Pode não se tratar exatamente daqui que estamos vivendo nesse momento. Aliás, o texto de hoje seria completamente diferente, mas aí eu vi essa citação.

Não foi selecionada especificamente para a data, inclusive,  algumas postagens programadas (CHOQUE!), mas achei que fazia completo sentido, no contexto. E vou explicar porquê.

É uma fala que trata de parceria, de trabalho em conjunto, amizade. De não deixar para trás as pessoas, não importando a situação.

E olha como nós estamos atualmente? Tristes, isolados, nos adaptando a uma realidade que nem sabemos exatamente como lidar. E muito menos em como tudo isso será após a “normalidade” retornar.

Mas há uma coisa que podemos seguir tendo (e aumentar, sempre que possível), os nossos humanos de confiança. Aquelas pessoas que faça chuva, sol, seja um rolê aleatório ou uma hora de chat por vídeo quando não podem se encontrar, vão estar conosco.

E isso não tem como mudar, gente. Não importa a barreira que exista entre nós, ainda que seja invisível, escondida em gotículas de um vírus muito muito ruim, os laços que estreitamos não são cortados pela distância.

Sei que é complicado, a falta do toque, abraços, afetos. Mas agora, mais do que nunca, é o momento de sentirmos com os nossos corações. Porque quando os sentidos puderem voltar a funcionar (tato, eu tô olhando pra você mesmo!), existirá um deles que estará ainda mais apurado: a empatia.

P: Mas, amada, isso aí não tá no livrinho que me ensinou os cinco sentidos!

R: E coração não é um elemento da natureza, mas isso não impediu o Capitão Planeta, não é mesmo?

Em todo caso, longe ou perto, juntos ou afastados. Ninguém está realmente sozinho. Porque estamos juntos nessa. E vai passar. E um dia vai virar um filme e todos riremos de nervoso ao assistir numa sala escura de cinema, dividindo uma pipoca (com mãos bem lavadas).

As pessoas que amamos seguem com a gente, ainda que não estejamos naquela almoço de domingo.

Os amigos ainda vão nos amar e chamar pro churrasco pós-quarentena (ok, isso vai depender de quantos memes entediados você vai mandar nesse período).

O amor vai seguir, mesmo se for só virtual por enquanto.

Então, quando você pensar nesse momento, lembre-se: aqui estamos nós! Na alegria, na tristeza, na saúde e nas pandemias. Pelo bem ou pelo mal, estamos juntos a qualquer distância!

Foto por cottonbro em Pexels.com

 

A crise do isolamento dos que não querem estar sozinhos

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**Bora colocar Sound of Silence para tocar…

Às vezes nós estamos deprimidos e tristes pela solidão e nos isolamos pra resolver isso.
Ué…
Quando lemos ou falamos em voz alta isso não faz menor sentido, né?
Mas, na hora, parece a única opção, não é mesmo?
Aquele monstrinho que vive na nossa cabeça insiste em ficar dando um conselhos estranhos.

Que adora gritar absurdos como “todos ficam melhor sem você”, afaste-se para provar um ponto” ou o pior “não sentimento nenhum é melhor do que a dor de um sentimento ruim”.

Mas sabe qual é a verdade? Se a gente liga o holofote, é porque a plateia está posicionada para prestar atenção.

E o valor do ingresso, nós que pagamos. E nem é meia entrada!

Então, o que podemos inferir? Se não tiver audiência, o show acaba!

E podemos buscar um outro rolê, com mais gente para socializar e curtir.

De que adianta a gente se isolar do mundo e depois perceber o plano deu certo e ficamos sozinhos? É isso que queremos? Não ter uma viva alma ao nosso lado?

Temos que ser completos e felizes sozinhos? Sim!

Mas temos que ser solitários? Não!

Precisamos manter qualquer pessoa na nossa vida só pra não sermos solitários? Não.

Entendida a diferença, podemos abrir os olhos e aproveitar melhor todos os que estão ao nosso lado e nos fazem bem.