selective focus photography of white mask on brown table

O poeta é um fingidor.

Mas não é só ele que finge sua dor.

De alguma maneira, todos temos um pouco dessa poesia.

Escondemos o sofrimento. As angústias. Deixamos lá no fundo da alma.

Cada vez que vestimos as nossas máscaras de sorrisos. As armaduras de palavras bonitas e motivacionais.

Nos blindamos.

Enchemos os pulmões para expirar ao mundo algo, que na verdade, é só uma tentativa de nos convencer  que realmente acreditamos naquilo.

Nos enganamos.

A esperança infinita que temos num futuro melhor, nas coisas que vão evoluir.

Na coração que vai se emendar e não vai voltar a se partir.

Somos tão poetas, que fingimos facilmente. Por trás de cada palavra, a confusão que está em nossa mente.

Nos enrolamos.

Vivendo personagens diários, o choro limpa a alma, tenta purificar o que está nos sujando por dentro.

Passar a limpo, quem sabe, todos aqueles rascunhos de nós.

Que ficam embolados no meio da tentativa de virar uma versão final.

Nos revisamos.

Os personagens que testamos, todos os dias. Que apresentamos ao mundo como se fosse a realidade.

Por medo de julgamentos. De incompreensão. De isolamento.

Por uma necessidade social, uma opressão ou um sentimento.

Nos transformamos.

Encarnamos tantas faces, mas quando é que seremos a nossa própria.

A que vemos no espelho quando não precisamos mais interpretar a nós mesmos para o mundo?

Sabemos que a cada momento, tudo mudo. Inclusive a gente.

Nos adaptamos.

Mas mudar não é manipular a imagem. É crescer. Evoluir.

Abraçar aquilo que nós faz especial. Alterar o que faz mal.

Torço para que um dia, sejamos a versão honesta, real.

Nos aceitamos.

Com nossos defeitos, tentativas e dores. Aceitas no coração e por todos aqueles que nos amam.

A máscara cairá.

E não precisaremos mais fingir a dor que deveras sentimos.

Nos mostramos.

Foto por gentina danurendra em Pexels.com

2 comentários em “Fingidores de nós mesmos

  1. Lendo este seu poema, lembrei-me de outras frases de Fernando Pessoa. A primeira encontra-se no poema “Tabacaria”, de seu heterônimo, Álvaro de Campos:

    “Quando quis tirar a máscara, estava pegada à cara.”

    E a segunda, na verdade é um poema de seu livro “Cancioneiro”:

    “Dizem que finjo ou minto
    Tudo que escrevo. Não.
    Eu simplesmente sinto
    Com a imaginação.
    Não uso o coração.

    Tudo o que sonho ou passo,
    O que me falha ou finda,
    É como que um terraço
    Sobre outra coisa ainda.
    Essa coisa é que é linda.

    Por isso escrevo em meio
    Do que não está ao pé,
    Livre do meu enleio,
    Sério do que não é,
    Sentir, sinta quem lê!”

    Que rico poema é o da “Autopsicografia”. E que texto interessante que me despertou tantas coisas!
    Abraços.

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